Link para as fotografias do evento:
Da esquerda para a direita: Jean Pierre, Eliane Almeida & Antoane Rodrigues
Nossa anfitriã, Eliane Almeida, ao centro na foto acima, bibliotecária do SESC Niterói/RJ, ofereceu-nos uma estupenda recepção, digna dos melhores encômios e adequada ao imaginário de quem espera ser bem recebido em casa alheia. Parabéns.
A palestra foi proferida pelo casal de historiadores Antoane Rodrigues do Carmo & Jean Pierre Guerra Domingues, seguida de uma mesa redonda de mestres de capoeira e depois, como não poderia deixar de ser, uma roda de capoeira. Um sábado culturalmente maravilhoso no SESC Niterói/RJ, com lanche e almoço.
Antoane Rodrigues do Carmo é bacharela com licenciatura plena em história pela Universidade federal Fluminense, pesquisadora da história de Niterói, com ênfase na história cultural. Trabalha com escravatura e abolição, patrimônio cultural e educação patrimonial, feminismo, entre outros interesses conexos.
Jean Pierre Guerra Domingues é bacharel com licenciatura plena em história pela Universidade Federal Fluminense, pesquisador da história de Niterói, com especial interesse em história social. Desenvolveu trabalhos de pesquisa sobre escravatura e abolição, patrimônio cultural e educação patrimonial.
O douto casal de historiadores, responsável pelo Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Niterói, explicou, pelas palavras da pesquisadora Antoane, de forma clara e concisa, a evolução da capoeira em paralelismo ao desenvolvimento sócio-cultural e político de Niterói, bem como apontou a dificuldade de se mostrar na topografia atual os registros pretéritos da capoeiragem niteroiense.
Num breve relato, contou-nos, a historiadora, sobre os negros calhambolas do século XVIII que, a despeito da definição do dicionário Aurélio que sinonimiza calhambola a quilombola, só queriam a fuga e liberdade e trabalhavam em serviço de apoio às tabernas, como leões-de-chácara, o que motivou a Junta do Governo do Rio de Janeiro, em Carta de 14 de fevereiro de 1763, ordenar a prisão dos calhambolas e o fechamento das tabernas; contou também, Antoane, que já no século XIX, 07 de fevereiro de 1820, foi decretado a prisão para qualquer indivíduo que estivesse na rua após as 22 horas e, acrescentou, que em 21 de dezembro de 1821 foram tomadas medidas severas e punitivas para coibir que escravos e vadios andassem armados; em 1823 foi criado e posto em prática o Código de Posturas para conter rebeliões de negros, deter calhambolas e impedir o avanço da capoeiragem, num objetivo específico de impedir que portugueses fossem vítimas de capoeiras na cidade de Niterói; em 1835 é instituída, em 27 de março, a Lei nº 5 que contém, coíbe e pune o crime de insurreição de escravos; em 1836, a Lei de 13 de abril aplica a pena de prisão e multa a todos que consentissem em suas propriedades ritos africanos, como candomblé e danças de negros; entre outros atos restritivos à liberdade dos negros em Niterói a culminar com o Código Penal da República, de 11 de outubro de 1890, que infere diretamente Dos Vadios e Capoeiras e possibilita o aparecimento feroz de João Baptista Sampaio Ferraz (o Cavanhaque de Aço) como chefe de polícia a dizimar com a capoeira brasileira, principalmente no Rio de janeiro, e Niterói estava muito próxima da Capital da República...
Foi-nos mostrado, com ilustrações outras (diferentes do verdadeiro acontecimento), mas a facilitar o entendimento do que seriam as encarniçadas lutas entre maltas rivais, os encontros entre os Guaiamus e Nagoas na Cidade de Niterói.
Foi dado destaque ao “Guaiamu” Cipriano José de Moraes, o Preto Cipriano, nascido em 1861 e morto por ferimento a bala, em 22 de dezembro de 1903, num encontro com o “Nagoa” João Bacalhau que “jogou sujo” e alvejou-o com um tiro pelas costas no seu último encontro de maltas. Apadrinhado político por razões eleitoreiras, vivia em grande conforto na Cidade de Niterói onde realizava festas memoráveis e mantinha bom relacionamento com a “Malta Guaiamu” do Rio de janeiro. Tinha ainda como inimigo de facção rival o “Nagoa” Natalino Gonçalves de Souza.
Finda a palestra, muitos aplausos de satisfação e foi logo iniciada a mesa redonda dos mestres presentes:
Link para as fotografias do evento:Na fotografia acima, da esquerda para a direita:
Eliseu dos Santos Felipe – mestre Zezeu - mediador – presidente da Federação Fluminense de Capoeira;
Raimundo Silva Filho – mestre Raimundo;
Luiz de Jesus Moreira Cavalcante – mestre Canelinha;
Renato de Almeida Cunha Bastos – mestre Renato;
José Machado dos Santos – mestre Machado;
Gilberto de Lima Gil – mestre Gil;
Rogério da Silva Vieira – mestre Rogério; e
Antonio Carlos Soares Daniel – mestre Liu.
Todos falaram sobre as suas ricas experiências de vida capoeirística, as suas produções e os seus diferentes e complementares métodos de trabalho pela capoeira, como trabalham e quais as suas características de ensinamento.
Destaques para mestre Zezeu a convidar a aluna Cinthia Elias Ferreira a ir à mesa dar depoimento sobre a influência benéfica da capoeira em sua vida. Foi emocionante e exemplar; e para os capoeiristas da terceira idade alunos dos mestres Renato e Raimundo; sem esquecer mestre Machado, transbordante de cultura acadêmica e capoeirística, a servir de exemplo aos jovens, mostrou como é ser capoeira respeitado e cidadão de sucesso na sociedade organizada; mestre Canelinha e o seu trabalho no Estácio, área pobre do Rio de janeiro; mestre Rogério também a servir de exemplo aos jovens que desejam ser mestres e o que fazer quando se chega lá; mestre Liu com a sua experiência e sabedoria; e mestre Gil, sucinto e simpático, mestre de vários mestres.
O evento foi altamente profícuo e lá aprendemos mais, saímos com mais conhecimentos sobre a história da capoeira e com a certeza de que para aprender a jogar capoeira, devemos concomitantemente, ou antes, mesmo, aprender sobre o conjunto de conhecimentos adquiridos através da tradição e, ou, por meio dos documentos, relativos à evolução, ao passado da capoeira e às condições sociais e políticas que encetaram a sua criação e evolução em solo brasileiro e agora no mundo todo, porque é certo que ela (a capoeira), indo lá para o estrangeiro, voltará com novidades as quais teremos que administrar na nova síntese da eterna dialética da vida a qual a capoeira não pode se furtar.